Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

LIBERDADE


Finalmente chegámos! Já não aguentava de tanta excitação. Dá sempre a sensação que esta viagem demora uma eternidade, um ano inteiro a sonhar com este momento, os preparativos, as malas, a roupa, todas as coisas que se deixaram por fazer, enfim tudo isso ficou para trás finalmente: chegaram as férias!!!

Devo-vos dizer que a viagem é sempre um trajecto muito importante, é o intervalo entre a realidade e o sonho, o desligar da nossa correria quotidiana, não ter mais horas para chegar, o fugir da cidade, o silêncio inesperado, podermos dormir quando quisermos, atravessar os campos cheios de árvores, parar para fazer um piquenique, ou apenas para desfrutar da paisagem, é simplesmente maravilhoso!

Não vos consigo descrever a sensação que tenho, quando depois de algumas horas de caminho, vislumbro ao longe na linha do horizonte o mar, sob as escarpas daquela rocha trabalhada pela acção do tempo e que me faz lembrar a minha juventude. Belos tempos ali passei, naquela praia, quando os dias não tinham fim e as férias pareciam intermináveis. Tenho saudades de conversar e brincar com os amigos que nunca mais vi…..

Tudo mudou e apesar de crescermos parece que afinal aquilo que mais queríamos alcançar: a nossa Liberdade, foi um sonho que se desvaneceu na areia da praia. Pensamos que quando a idade adulta acontecer vamos conseguir controlar a nossa vida, fazer realmente aquilo que queremos e o que nos der na “real gana”, iremos controlar e contornar todas aquelas variáveis que nem sabíamos existir. Não poderíamos ter seguido uma estratégia mais errada! Não vimos que afinal aqueles foram os tempos da verdadeira liberdade, de saltar as barreiras do desconhecido, de vivermos da maneira mais intensa e descomprometida que sabíamos, não associámos afinal, que vistas bem as coisas, aqueles foram os melhores tempos da nossa vida.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

A Realização Dramática


Esta obra, inspirada num tríptico Marriage à la Mode, e Hogarth, 1999, corresponde à última cena, onde o marido é assassinado pelo amante da mulher. Na gravura, o marido e a mulher estão acompanhados por uma velha senhora à esquerda. A mulher está a olhar para o lado, para a velha, com um ar satisfeito e desafiador, como se estivesse feliz por ver o marido naquele estado, um estado mais parecido com a morte como numa alusão à Pietà a sério. A gravura é ainda mais irónica por mostrar o homem envolto numa espécie de enorme véu de noiva. A autora comenta sobre a personagem da velha senhora, dizendo que “é provavelmente a mãe da rapariga. Está de braços estendidos, como a perguntar-lhe se pode ser ela a segurar o homem inconsciente – ou adormecido – por um bocadinho.”

Este tipo de representação implica sempre a presença do outro. Para que a actividade do indivíduo se torne significativa para os outros, ele terá de expressar durante a interacção aquilo que ele quer transmitir. Ou seja, não basta afirmar as suas capacidades, o actor tem também de as saber representar e fazer evidências destas a qualquer momento.

Por vezes, nem sempre o que parece é!



Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A FACHADA


O conceito de fachada consiste no “equipamento expressivo de tipo padronizado, empregue intencional ou inconscientemente pelo indivíduo durante o seu desempenho.”

Em primeiro lugar temos o “quadro”, o qual inclui o mobiliário, a decoração, a disposição física e outros aspectos do pano de fundo, que constituem o cenário e os alicerces do palco para desenrolar a acção. Como partes da fachada pessoal temos a profissão ou a categoria profissional, o sexo, a idade e raça, as dimensões físicas e a atitude, a maneira de falar, as expressões faciais, os movimentos do corpo, etc.
Podemos ainda dividir estes estímulos em “aparência” e o “modo”, segundo a função desempenhada pela informação a que determinados estímulos dizem respeito. A “aparência” comunica-nos o estatuto social do actor, diz-nos se está a desempenhar alguma actividade social formal, se está a trabalhar ou na práctica de uma acção recreativa informal. O “modo” informa-nos do papel que o actor conta desempenhar na acção que se avizinha, por exemplo, um modo arrogante induz à liderança do discurso, ou um modo humilde, aquele em se prepara para seguir o que os outros lhe dizem. Neste enquadramento é esperado que exista uma coerência entre o “quadro”, a “aparência” e o “modo”.

Acreditar no próprio desempenho

Paula Rego, As meninas
Erving Goffman defendia que todos desempenhamos um determinado papel social. Neste sentido todos nós somos actores e representamos um papel na sociedade em que estamos inseridos. Quando um indivíduo desempenha um papel exige que os seus espectadores o levem a sério. Assim, o indivíduo organiza o seu desempenho e acções tendo em conta a intenção das outras pessoas. Existem duas possibilidades: ou o indivíduo está totalmente convencido do seu papel, acredita e faz acreditar a sua audiência nessa realidade onde se insere ou então, o actor não está plenamente convencido da sua representação, nem tem um interesse especial em convencer a sua audiência. A estes últimos chamamos de cínicos.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Erving Goffman, o sociólogo do espaço

Erving Goffman nasceu a 11 de Junho de 1922 e morreu a 19 de Novembro de 1982. Foi um sociólogo e escritor canadiano. Estudou nas universidades de Toronto (B.A. em 1945) e de Chicago (M.A. em 1949, Ph.D. em 1953).
Estudou a interacção social no dia-a-da, especialmente em lugares públicos, principalmente no seu livro A Apresentação do Eu na vida de todos os dias. Para Goffman, o desempenho dos papéis sociais tem a ver com o modo como cada indivíduo concebe a sua imagem e a pretende manter. Estudou também com especial atenção o que chamava de "instituições totais", lugares onde o indivíduo era isolado da sociedade, tendo todas as suas atividades concentradas e normalizadas. Pode-se citar como exemplos: as prisões, os manicómios, os conventos e algumas escolas internas.

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Dicas importantes para a elaboração de teses


Por onde começar? Esta é sempre a primeira questão que nos vem à ideia.
Para ajudar a nossa busca iremos recorrer como não podia deixar de ser aos livros. E como a metodologia do trabalho ciêntifico faz falta a quem tem pouca prática neste tipo de coisas, hoje recomendo a leitura do livro de Umberto Eco " Como se faz uma Tese em ciências humanas". Com uma linguagem acessível e despretenciosa conseguimos recolher conselhos e dicas preciosas. À pergunta "Quanto tempo é preciso para fazer uma tese?", o autor responde prontamente: não menos de seis meses e nunca mais de três anos! Já nos dá uma margem para fazer a planificação do nosso trabalho. E explica ele: "não menos de seis meses, porque mesmo que se queira fazer o equivalente a um bom artigo de revista, que não tenha mais de sessenta páginas (coincide com o nº de páginas pretendido para a nossa tese), entre o estudo da organização do trabalho, a procura da bibliografia, a elaboração de fichas e a redacção do texto passam facilmente seis meses." Já no extremo oposto os três anos o autor refere: "se em três anos de trabalho não se conseguiu circuncrever o tema e encontrar a documentação necessária, isso só pode significar três coisas:

1) escolheu-se a tese errada, superior às nossas forças;
2) é-se um eterno descontente que quer dizer tudo, e continua-se a trabalhar na tese durante vinte anos, enquanto um estudioso hábil deve ser capaz de fixar a si mesmo limites, mesmo modestos e produzir algo de definitivo;
3) teve início a neurose da tese, ela é abandonada, retomada, sentimo-nos falhados, entramos num estado de depressão, utilizamos a tese como álibi de muitas cobardias, etc...."
Enfim, estou a ser "clara" ? (Onde será que já ouvi isto?)

Bem, há outro capítulo muito importante, (III.2), sobre a investigação bibliográfica que contem uma passagem deliciosa sobre que livros se devem ler e por que ordem, etc. Temos os conselhos práticos que nos dizem que "devemos abordar logo dois ou três textos críticos dos mais gerais, o suficiente para ter uma ideia do terreno em que nos movemos; depois atacar directamente o autor original, procurando entender o que diz; seguidamente examinar a restante crítica; finalmente, voltar a analisar o autor à luz das novas ideias adquiridas."
E é aqui que Umberto Eco distingue os dois tipos de investigadores: os monocrónicos e os policrónicos!!! Para vos esclarecer, os primeiros só trabalham bem se começarem e acabarem uma coisa de cada vez. "Não conseguem ler enquanto ouvem música, não podem interromper um romance para ler outro, pois de outro modo perdem o fio à meada e, nos casos limite, nem sequer podem responder a perguntas quando estão a fazer a barba ou a maquilhar-se." (Confesso que isto pode ser um pouco exagerado!!!)
Os policrónicos (onde, por acaso eu me insiro) são o contrário. "Só trabalham bem se cultivarem vários interesses ao mesmo tempo e se se dedicarem a uma só coisa, deixam-se vencer pelo tédio. Os monocrónicos são mais metódicos, mas têm pouca fantasia; os policrónicos parecem mais criativos, mas muitas vezes são trapalhões e volúveis".
Mas não desesperem, caros amigos, onde quer que se revejam, monocrónicos ou policrónicos, tomem por consolação que existem, grandes autores com ambas as características. Por isso, mãos à obra e por favor não se esqueçam de regar as Margaridas!!!

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Vamos começar pelo princípio







Tal como as margaridas precisam de água, terra e cuidados para viver, também nós meros mortais, mas cidadãos do mundo necessitamos de uma imensidão de ingredientes para viver e sobreviver neste mundo. Com que nos alimentamos? Perguntam vocês e muito bem.


Saltando a base da pirâmide de Maslow, onde estão inseridas as necessidades básicas (alimentação, abrigo, necessidades fisiológicas) e depois destas satisfeitas o ser humano tem necessidades de afecto, estima (reconhecimento e estatuto) e por último, mas não menos importante as necessidades de auto-realização, profissionais, etc. Isto serve para dizer que, não adianta pregar ou querer ensinar o que quer que seja a alguém (como por ex. a importância de Darwin para a ciência moderna - necessidade de 4º nível), quando se está cheio de fome - necessidade de 1º nível.


Analogamente, podemos extrapolar este raciocínio para a preocupação diária dos alunos de mestrado que pretendem realizar a sua formulação de pré-tese e que se preocupam com estas coisas da Educação Artística. Desta forma sugiro a leitura de um livro da autora Maria Montessori, intitulado "Criança", no original, o "Segredo da Infância". Pode dizer-se que os ensinamentos de Montessori revolucionaram radicalmente as noções tradicionalmente aceites sobre o mundo da infância. Está hoje popularizada a crença de que o mundo infantil é um mundo à parte. Cabe a esta autora o mérito de ter transformado, através do seu ensino e das suas obras, as estruturas antipedagógicas que consistiam em assimiliar a criança no mundo dos adultos, retirando à infância o que é um dado primordial da sua natureza profunda: a sua personalidade autónoma.


Para quem trabalha com crianças é fundamental, digo eu, numa primeira instância compreender e entrar no seu mundo, tal como as margaridas, há que prepara o terreno e verdade ...não se esqueçam de regar as plantas...